Bom, provavelmente essas palavras não soarão tão cultas quanto eu gostaria. Trata-se de um fato verídico que emaranhou os sentimentos, e não emoções desesperadas que criaram um acontecimento. Ria, chore, não ligo; satisfaço-me com uma simples decodificação transeunte desse vômito de signos.
Devo começar pelo início. Não vou dançar iludida pelos aconchegos de Cronos. Passei a tarde limpando um acervo com cerca de 100 livros para doar à biblioteca. Parece nobre, não acha? Digo, não para o nanismo que se apoia em meu corpo, mas para a deformação de cérebros moldados a apenas um juízo errôneo. Aliás, não sei nem se a poderosa e exemplar e altruísta e eficaz e influente - e outros adjetivos irônicos - biblioteca de Jacareí aceitará o acervo. Não, espere... os devaneios não vão me aprisionar agora (a fiança custa-me o sono).
Como já era de se imaginar, meus músculos (espero que sejam os músculos) do meu braço direito protestaram a noite toda. Sucumbi à medicação. Fui para a cozinha pegar o remédio. Algo rápido, aparentemente sem obstáculos. É, aparentemente. Porque foi lá que encontrei muito pior que um Jason Voorhees - eu poderia escrever Freddy Krueger, mas me simpatizo com ele (deve ser por causa daquele narigão). Era o retrato fiel do que costumam me descrever do capeta: ora, que postura inocente! Uma estrutura diminuta que corre para se alimentar e se sentir segura. Mas é encenação - ou fita, como diria meu pai sobre meus prantos infantis. E posso comprovar por meio de sua feiura não apenas presente na aparência, mas em sua alma - se eu não acreditava em almas, nesse momento eu acredito. Era um monstro por completo que emana, dissimuladamente, seu ódio, sua fúria, sua megalomania.
Desembaraçando esse nó de suspense: sim, era uma barata. E não, não me venham com esse discurso de que baratas são seres puros como os cães, que não nos fazem mal, que apenas saem de suas casas para comer da nossa irresponsabilidade e blábláblá. Vocês são todos tolos! Estão hipnotizados pelo que se julga natureza. Os seres humanos são cruéis, sem dúvida, mas as baratas ultrapassaram a linha da maldade ao enganarem a gravidade, a se transportarem por vãos inexistentes e - ai de mim! - conseguirem voar. Sou uma pessoa exagerada, mas só um pouco. Minha exorbitância não transcendem minhas divagações, que são meu oxigênio (e ainda estou viva!). Ou seja, não engrandeci esse relato tanto quanto é real.
Reagi do modo levemente previsível: gritei e corri. Pensei em recorrer a heroína - a única pessoa capaz de enfrentam um duelo entre chinelos e anteras: minha mãe. Mas a conheço tão bem! Se eu a despertasse, ela se transformaria em uma barata tão evoluída ao ponto de não se importar - e ainda me cortar com suas palavras afiadas. Portanto, era eu contra o Demônio.
Peguei o inseticida aos prantos sem lágrimas, já que o desespero secara meus instintos (perdão, pulsões!). Acionei minha arma como um teste e me aliviei por não ter atacado meu próprio rosto. Calculei uma distância segura para não perder a luta caso a barata voasse. Essa é a aritmética do medo, meus caros.
"Morra, desgraça, morra!"
Estrategicamente, cerquei a barata com o inseticida. Esqueça as trincheiras, criatura, estamos frente-a-frente! Persegui-a com meu jato cor de neve, mas quando aquele dragão, que libera violência pelas suas patas articuladas, correu ao lado da fruteira, sofri um corte profundo: envenenei as frutas.
Naquele instante, pensei ter perdido a guerra. Minha mãe me mataria; meu pai me mataria; alguma ONG contra o desperdício de comida brotaria na minha casa e me mataria. Sou uma abominação ética, Chauí, perdoe-me!
Não! Isso não é uma derrota completa! Bati em meu rosto com minhas palmas ásperas (ok, não bati) e brandei: "Isso foi apenas uma batalha perdida, ser desprezível!". ATAQUE ATAQUE ATAQUE! SINTA A MINHA ABOMINAÇÃO ÉTICA, BARATA, SINTA!
Minha inimiga foi se invalidando até se refugiar atrás da lixeira. Estava apontando seu abdome aos céus? Usei minha armadura - uma banqueta - para me certificar empurrando o recipiente, mas foi em vão.
Ahh, estava quase me esquecendo! Essa aventura foi exclamada em voz alta e clara; o expurgo de cada poro de meu corpo. E foi o suficiente para acordar a minha mãe. Sua voz entrecortada por seus olhos semi-cerrados me espantou. Contei-lhe tudo! Sobre a barata... e sobre as frutas. Sim, ela me respondeu com um tiro certeiro: a decepção em sua expressão, sua mão levada ao rosto, aquele tom indignado com a estupidez de sua prole. Céus, perdi a guerra?
Todavia, ela me certificou que a barata estava em sua posição clássica de derrota. Isso não me garante sua morte. Aquilo ainda respira; suas patas procuram a revanche; sua essência está sapateando sobre as frestas das portas, a água da torneira, o leito de minha cama protegida por três degraus insignificantes. Baratas, são imortais. Tive que me contentar apenas com sua pose.
E o relaxante muscular? Estava envolto da atmosfera falsa de morte. Tive que procurar em um depósito particular de meu pai. Minha dor física era o meu ombro amigo.
Isso aconteceu pouco antes das duas da madrugada. Meu combate à insônia foi usado para a busca do remédio. A adrenalina da luta me manteve desperta para escrever essa confissão às 3:31, horário de Brasília (meu celular é Brasília).
Confesso que estou com medo do meu amanhã (o dia só acaba quando durmo).